O Português e a Matemática
Por André Doreto Rodrigues
e-mail do autor: andredoreto@hotmail.com
Travessão era um sujeito simples, composto de traços fortes e virtudes plurais, como sua personalidade singular. Veio de Portugal à procura de emprego, algo que tornasse seu futuro melhor do que seu triste presente. Chegando aqui, encontrou um trabalho duro. Diariamente passava horas no coletivo com aquele uniforme quente e ainda tinha que se subordinar às terríveis ordens de seu inescrupuloso patrão, um sujeito determinado a infernizar sua vida. O português teve um pretérito imperfeito. Faziam vários trocadilhos com seu nome, utilizando um parônimo muito desagradável, como se ele fosse um cara comum-de-dois-gêneros.
Já subtração, formada em Matemática, era uma menina racional. Católica fervorosa, visitava semanalmente a igreja matriz da cidade e pagava o dízimo periodicamente. Seu corpo, nada retilíneo. Pelo contrário. Era possuidora de exuberantes curvas e vestia-se com combinações deveras sedutoras.
O português conheceu inúmeros primos da matemática, pois faziam academia juntos. Na oportunidade, Travessão fazia flexão quando involuntariamente Adição, primo de Subtração, esbarrou nele. Enfim, tornaram-se amigos e se falavam regulamente. Quando menos se esperava, o português estava namorando Subtração. Um casal tão diferente... Ela, menor que ele. Ele, possessivo, sempre soltava o verbo quando ela tinha um comportamento irracional. Apesar das desavenças, o turbulento namoro evoluiu para um inacreditável casamento.
Os irmãos gêmeos de Travessão, os dois-pontos, acreditavam que seu futuro seria defectivo. O pai da matemática também era contra. Sempre soube que a probabilidade de o casamento dar errado era infinita, pois sua filha era sistemática e Travessão pertencia a outra área, que nunca se enquadraria em seus planos.
Certa feita, Subtração encontrou Travessão com Virgulina, sua amiga de infância. Viviam juntas na escola, formando um conjunto inseparável. Isso foi determinante para que a matemática colocasse um ponto-final no relacionamento. Sabia que dali pra frente os problemas só multiplicariam.
Tentaram dividir os bens para definir o que antes estava indefinido. Incalculáveis eram os graus das brigas que travaram na justiça. Cada um enxergava as coisas por seu ângulo, não se lembrando dos bons tempos de união. Ninguém concordava com nada. Faziam orações para que os problemas chegassem a um acordo. Ao final, as propriedades da Subtração ficaram com ela e Travessão saiu apenas com um velho acento (sem os dois “S”) que levara para a casa em que viviam.
Nunca mais se falaram, nem ao menos se encontraram. Por isso, até hoje, quem gosta do português não gosta da matemática, e vice-versa.
André Doreto Rodrigues é acadêmico do 5º ano diurno da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Estado do Mato Grosso do Sul, na cidade de Campo Grande.